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textos curtos, microcrônicas, poemas "curtos que curto"
por Eduardo Sinkevisque

May 29, 2012 at 6:40pm

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NONO POEMA DOS POEMAS DO LIVRO BOM

Livro Bom não chora. faz chorar. meninos não choram. fazem chorar.  meninas de ortografia linda. certa. correta. meninos nada ortográficos. errados. e as bonecas de cabeças arrancadas. os brinquedos estraçalhados.  menina-menino. menino-menina. fantasia. esmalte nas unhas dos dedos dos pés. esmalte vermelho. encarnado. e as sandalinhas fetichistas. meninos e seus encantos. suas manias. masturbação todo dia. o dia todo. e, de novo. meninas-mamãezinhas. e as xoxotinhas. xoxotinhas que não são xoxotas propriamente. não são vaginas, não são bocetas. são a palavra-xoxota. a festa da menina morta. a árvore donde xoxotinhas brotavam. Livro Bom não provoca. prova da provocação com a escavação da boca. prova da provocação com vocação antropofágica. lambe tudo. lambe-lambe o fotógrafo da praça. e lambe lambe Lambe Lori. Sra. D, a Sra. P, Senhora Poesia embaixo da escada. no côncavo cavado dos degraus. no lombo do cachorro. no lombo do cavalo. na cacunda da besta. Livro Bom mora sozinho. e nunca mais vai morar com alguém. Livro Bom não é besta. bondade dele com ele mesmo. bondade com os outros. Livro Bom tem certeza que ser bom é ter coragem. coragem do caralho. coragem da boceta. coragem do cu. coragem da bondade dita na lata. coragem que escancara. escarra. cospe. a maldade não é seu contrário. a bondade é ruim, a bondade é ruim. em LB não há paradoxos, nem oxímoros, nem antíteses. é tudo ao mesmo tempo agora. similitude. simultaneidade. fica poetizado quando finca a pica do pica-flor encantado. quando finca a pica porrete, a pica cajado. Livro Bom é rapado. com unhas da Arte de Furtar. fica mais rico quem mais rapa. mais trepado quem mais alto trepa. e tem aquela parte que rima com carepa que LB não se lembra, ou faz questão de esquecer.  não lembrar. Livro Bom não chora. faz chorar. meninos não choram. fazem chorar. a cebola de episódio passado não foi suficiente. fundo de olho embaçado, mas não molhado por inteiro. e a pimenta no dos outros. aquele clichê ardendo. meninos não choram. fazem chorar.  meninas choram. xoxotinhas molhadinhas. e a experiência nos dedos. o rímel preto borrado. o batom sujando os dentes da frente. Livro Bom não chora. faz chorar. meninos não choram. fazem chorar. raiva esculpida na ponta da faca é raiva simulada. verossimilhança de raiva. efeito do afeto traçado. pretendido. pretérito-mais-que-perfeito.  afeto despojado. despejadas as tempestades do tempo. gente diferenciada. marchas e mais marchas. longa duração de privilégios. sortilégios em regimes de historicidade.  articulação da mandíbula doendo. boca vazia. pela metade. à tarde, LB arde. rosna bravo entre grades. distraído para a morte é Samba pra Burro. Livro Bom não consome. some nas quebradas. descola umas paradas. e cria calos. Cria Cuervos. amor perro que dá nos nervos. a mão que afaga. que apedreja. e aquele clichê de quem dá o pão dá o ensino. a bondade é bondage. Ata-me. sadomasoquismo de parquinho, sadismo, masoquismo de país emergente. nó de marinheiro. pedreiro. servente. Livro Bom não é nada. fora isso, tem todos os desejos do mundo. nó de marinheiro. nó no peito. e aquele clichê ficando cult. nó de marinheiro. Querelle por inteiro. mãos no escuro pegando por inteiro. entrando pelas frestas. fazendo da floresta resumos de natureza. e os povos da floresta num jogral ridículo. que dá medo. penas que dão pena. vendas nos olhos de cabras-cegas. Livro Bom é veneno. cão fundido no dono. dono fundido no cão. e aquela vida de cão. e aquela vida-cão. aquele mundo cão sem dono, nem porteiro. e o clichê cachorrinho está latindo lá no fundo do quintal.  e o ventinho uivando. as parreiras uvando. Marilu ovulando de novo. ovulando de raiva e medo. os filhotes crescendo. independentes. engordando o livro. engordando livros. tornados capítulos. arco-íris. olhos mordidos por caracteres. bisturis e pinças. sutura da bondade excedida, mas que não alcança. Hilda na balança avança. e não pesa o agora é tarde. promessa sem jeito. promessa  ingrata de compressa. gaze da múmia do tempo. nó de marinheiro. nó de peito. e Hilda numa chave de perna pergunta: trouxeste a chave? e completa incompleta: sou o ferrolho. a fechadura trágica que mais abre. se abre. crueldade invasiva das quebradas, das viradas dos barrancos. e becos são becos. a não ser o das garrafas. girafas as xoxotinhas com pescoços densos, delgados, afinados com o coro. Aristóteles e os preceitos trágicos. o leite escorrendo das tetas. a palavra boceta.  e a metáfora da vagem na metelança da linguagem trepada naquela árvore toda cepa. e Hilda numa chave de perna pergunta: trouxeste a chave? corcova de camelo. curvas da língua em derrapagem. à tarde, Livro Bom arde. e tem saudade de coisa a ser lembrada. saudade de quando tinha memória. tinha saudade. o que fode tudo é a bondade. carícia de carinho que invade. xoxotinhas em coro: Hilda arde, Hilda arde, Hilda arde. arte dos ferrolhos sem chave. poetizada, ela é marvada. carne cozida.  o que fode tudo é a bondade. carícia de carinho que invade. xoxotinhas em coro: Hilda arde, Hilda arde, Hilda arde. arte dos ferrolhos sem chave. arte da pura maldade. Livro Bom não chora. pelado se apavora. Livro Bom não chora. pelado se arvora.

May 28, 2012 at 6:38pm

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OITAVO POEMA DOS POEMAS DO LIVRO BOM

Livro Bom é adverso. divertido. diverso. sortido, é conjunção aditiva. adversativa.  e deita de barriga para cima. espera o afago. se afoga em sua baba. e se enrola em seu próprio rabo. Livro  Bom é lagarto. sol trincando a rocha. pedra de toque. eletrificação das veias-cordas. o que aconteceu com os filhotes? cada um dos doze se multiplicou. viraram textos, capítulos, enredos. unidades temáticas.  fábula da paródia, da epopéia, da poesia trágica. são histórias. meninos de pau duro. o grande cu do mundo. e aquele dedo anelar de anel trocado. tapete de banheiro de molho. noutro dia esfregado. com as mãos. com esfregão. com escova. e depois enxaguado, estendido no varal. sobre os canteiros. e a coisa escorre preta. gemido gutural de Criolo. o bonde das mulheres-frutas, das mulheres-bundas. os play-boys, os coxinhas. os machos-alfas. Livro Bom é liberdade de poeta. doçura da coisa torta entrando reta pelo reto, pela uretra. o fetichismo do feitiço do feiticeiro. Livro Bom faceiro. feliz de felicidade antiga, conquistada. a sedução que não é armação, nem composição. estudo. rascunho. desenho.  meninos de pau duro. e o cu duro. o grande cu do mundo. as lesmas. a merda. e a lepra do politicamente correto. Livro Bom é escorreito. não é escoteiro. não é enfermeiro, nem médico. ao sol, descansa. descasca uma mexerica-bergamota.  mexericos digere. e fofocas. paparazzo desta nada mole vida. paparazzo das mocinhas pudicas. das mocinhas sem xoxotas. e as xoxotinhas no coro: arranca o couro do gato, arranca o couro do gato. e faz dos couros pandeiros e tamborins de escola de samba. Livro Bom é adverso. divertido. diverso. sortido, é conjunção aditiva. adversativa. e deita de costas. em rio que tem piranhas, LB nada de costas. Livro Bom é jacaré. papo amarelo. papoula. não quer virar bolsa. nem sapato. lambe os sapatos. Laranja Mecânica. Livro Bom é rapper . mixa o batuque das teclas pretas. batuca no teclado. máquina de escrever da infância maquina. LB é CB. sangue bom numa licença poética. a festa da cumeeira. a bordadeira sem bordas. é treta, véi. é treta. Livro Bom é adverso. divertido. diverso. sortido. é conjunção aditiva. adversativa. e as armas e os barões assinalados são os 38, as escopeta, as arrê 15, as bazuca. e os chefes do tráfico. os alemães e seus canhões. morros pacificados.  Livro Bom é Punk da Periferia. jogado aos urubus. não às traças. traça as mina. e as mina pira. as preparadas, as chuchucas. e as cachorras. as cachorras na galeria. Livro Bom está aqui pra vocês.  e o padre reza a missa. bondade que vira fumaça. pinga que pinga. cerveja que encharca. e o Livro Bom aqui pra vocês. na Freguesia do Ó. ó, ó, ó. Livro Bom é vanitas. celebridade instantânea. e os amores de criança. abuso de forças, de poderes. é de maior intensidade. aqui pra vocês. e aquele dedinho do meio mandando praquele lugar. Livro Bom é o cangote da onça. a hora de beber água. a Hora da Estrela. Augusto Matraga. Livro Bom não mata. mostra a cobra. e enterra o pau na sua cara. e o coro das xoxotinhas: põe tudo. não para, põe mais. não para, não para, não para. e as mina até o chão. Livro Bom é Maria Batalha. Maria Chuteira. DNA de plantão. não para, não para, não para. e desce até o chão. chão, chão, chão chão chão. Livro Bom é a visita da vizinha que diz gostar de cachorros. todos. quaisquer cachorros. e ri o riso louco, o riso Hilda. o riso Hilst. pernas afastadas fazendo esquinas. xoxotinhas penetradas por formigas. estirpes elogiadas. estirpes esquecidas. Livro Bom é adverso. divertido. diverso. sortido, é conjunção aditiva. adversativa. sem cérebro, Livro Bom não é Cérbero. cego a mascar chiclets no bonde Jardim Botânico. as sacolas de compra. e a vida do contra. luz amarela. mancha amarela de nicotina. Livro Bom é as mina. e os mano. exibicionismos. ímã. hino.  e ri o riso louco, o riso Hilda. o riso Hilst. pernas afastadas fazendo esquinas. xoxotinhas penetradas por formigas. estirpes elogiadas. estirpes esquecidas. vértice de geometria esquisita. invertidos os cantos, nó de cantiga. espinha de peixe. escama querido. oráculo do tempo no tempo. é membrana destecida. Livro Bom é adverso. divertido. diverso. sortido, é conjunção aditiva. adversativa.  e ri o riso louco, o riso Hilda. o riso Hilst. pernas afastadas fazendo esquinas. xoxotinhas penetradas por formigas. estirpes elogiadas. estirpes esquecidas.

May 26, 2012 at 3:20pm

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SÉTIMO POEMA DOS POEMAS DO LIVRO BOM

Livro Bom não é limão. não azeda conversa de conversa em conversa. tempera a carne. de palavra em palavra, se põe a cozinhar. cozinha os dias, as datas nas folhinhas. charuto de folha de uva. raposa de olhos na parreira. rapsodo, compõe episódios microscópicos. macro no micro. de cro-magnon, é macaco. aquele abraço era bom augúrio. auspicioso encontro de corpo. bom presságio. Livro bom não paga pedágio. tempera o abacate. lirismo de açúcar branco. refinado de bóiafria. de cortar cana, cortar a carne. lirismo doce. avocato. verdade de verdura madura. verde da verdura sem fim. verde de cana. verde condicionado. cana caiana. ele é seu, somente seu cão criado. Cobra Honorato. é cobra que não anda. não engole sapo. cobra que anda. engole sapo. Zé trindade num filme da Atlântida. alegria de caipirinha. clarinha, clarinha. e as frutas vermelhas da caipiroska. LB é animália. não é fábula. não é prosopopéia, nem apólogo. muito menos apologia. música calminha. música narrativa. música agitadinha. musiquinha. LB é bestiário. besta-fera das bestas sobradas. e aquelas xoxotinhas ensopadas. Livro Bom não é limão. coisa fácil. factível. in natura. Livro Bom é tátil. a horta do terraço. a aorta. o marcapasso.  e aquela operação de emergência. o quarto da sucessora. o anjo mal. paraíso perdido. naturezas mortas de cozinha. na cozinha. escorredor de louças, panos de prato. LB engasga com comida de rua. não escolhe o que come. e tem espasmos intestinais infernais. espasmos de intestino grosso, fino, delgado irritado. Livro Bom não é limão. como eram mesmo as mulheres da Arcádia? aquelas de Vila Rica? as mulheres de Vila Rica do século XVIII eram umas fudidas. eram submetidas. mal pagas, mal comidas. mas aquelas da nobreza, as da realeza, e de castas superiores, burocráticas, eram bem vestidas, comiam bem, tinham dotes. noves fora nada, a história agora é um trote.  outras se casavam com iguais ou iam para o convento viver amor freirático, para que seus pais não vissem suas fortunas arruínadas. aquelas de castas inferiores eram escravas, ou serviçais. eram mulheres loucas. Mulheres Negras. Livro Bom não é limão. como são as mulheres de suas páginas? xoxotinhas hilstianas. e a voz de Tulipa Ruiz. LB adora as xoxotinhas. e adora Tulipa Ruiz. e sua prosódia paulista de quando ela canta ou diz a ordem das árvores não altera o passarinho. LB sabe imitar o sotaque dessa fala, desse canto, dessa música, dessa cantiga. e fica todo todo molinho, bobinho.  encantado com ela Livro Bom fica. e fica com a koysa quente. com a pica do pica-flor babadinha. e com vontade louca de comer guioza. comer a comida daqui. comida dali. as xoxotinhas. e a galinha mais gorda do vizinho. a visita. querer comer a comida daqui é não comer a daí. não ter que cozinhar, por para assar, coser, costurar. e come essa comida aqui. xoxotinhas-Hildas. xoxotinhas intumescidas. lindas. com calcinhas comestíveis de Kátia Flávia. e o focinho facinho libidinoso de novo. narinas de cavalo. e o bafo no pescoço todo escalpelo pelo sol aberto do azul infinito. Livro Bom não é limão. não, não é fácil. não é obscenidade, nem pornografia. Livro Bom é o caralho. monstro da lagoa. todo junto e misturado, é maria-sem-vergonha. erva daninha do enfeite destituído, dos floridos desenfeitados. Livro Bom é o caralho. o caralho dizer que ele é pornografia. o caralho dizer que é obsceno. LB é obcecado. obsessivo. perverso. paranóico. nem esclerosado, nem esquizofrênico. Livro bom não é limão. é caipirinha. e aquela comida esfriando no prato. o pássaro e o gato. tão perto-longe. e as espécies de bichos. inimigos constituídos. e as armas em guarda. Livro Bom é rock de garagem. sujeira de sonoridade. é da casta das cascas arranhadas. e aquele miolo doido, aquele miolo mole. rock, rock, rock. Hilda escutando mortos. e as xoxotinhas no coro: bondade é o caralho, bondade é o caralho … Aristóteles e os preceitos trágicos. Livro Bom é do caralho. e as xoxotinhas agasalhando os croquetes. casaquinhos de lã dos mascotes. filhotes alimentados. Livro Bom não é limão. libertino histórico, é trans-histórico. controle remoto, transistor. Livro Bom não é biógrafo. vida exemplar explodida. e as xoxotinhas no coro trágico: Hilda, Hilda, Hilda … a sigla HH. LB trepa com HH. cópula da coisa coito, da coisa coisa. colóquio de entra e sai. observação e experiência do jardim das delícias. Livro Bom não é limão. lirismo corrosivo. e a feitura do manifesto de seu gesto poético in natura. orgânico. sem agrotóxicos. Livro Bom com Hilda Hilst. LB com HH. e o sexo das siglas. Livro Bom não é limão, nem espermicida. é Criolo. diz ao que veio. e as xoxotinhas em coro: miolos de alcachofra, validades vencidas. LB com HH e o sexo das siglas. e o coro das xoxotinhas na repetição repetitiva: mamãe, eu quero mamar … mamãe, eu quero mamar … eu quero mamar, eu quero mamar, eu quero mamar. LB com HH no sexo das siglas. na poligamia polifonia. sua vocação antropofágica. seu paladar sangrento. raro. sua pele sardenta. madeira em brasa. pedra noventa.  Livro Bom não é limão. diz com quem anda. e diz quem é. Aristóteles e os preceitos trágicos. Livro Bom é guloso. destemperado. Livro Bom não é limão. diz com quem anda. e diz quem é. e aquele clichê de lobo bobo, de lobo bolo, de novo. e aquele clichê bíblico. textículo. versículo da vesícula.

May 25, 2012 at 5:16pm

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SEXTO POEMA DOS POEMAS DO LIVRO BOM

Livro Bom não é bonzinho. cansou de ser bom. de cachorro a lobo. de leão a gato. de lagartixa a lagarto. pererequinha virou sapo. príncipe nenhum. viola no saco. nem Maquiavel, nem santo-sacro. escreve, escreve, escreve. eco das vias respiratórias translúcidas. aqualouco da vida lúcida. e dá um piparote na morte. nas coisas mornas. nas coisas sem consistência, nem compromisso. negócio do ócio, trabalha a palavra difícil. incômodo de vento na calmaria. banalização. eco-via. Livro Bom não é bonzinho. cansou de ser bom.  fera de ferocidade nas tripas. não vomita. não regurgita. escolhe as palavras mais próprias. as mais sentidas. principalmente as mais pensadas. e compõe guerrilhas. escaramuças. barricadas. quadrilhas. guerra de tocaia grande. guerra de tocaia sempre. kamikaze. suicida. Livro Bom é Criolo. não é Emicida. ataque aéreo de ferro velho. Livro Bom não é bonzinho. cansou de ser bom. de girino a sapo. de larva a inseto. capim pela raiz. formiga. e a fome maldita do dedo na ferida. e aquele clichê espumando espumante. não é o de antes.  e a febre terçã. a febre que a pele irrita. Livro Bom não é bonzinho. cansou de ser bom. as listas funcionam. são práticas pragmáticas que impulsionam.  ele esfrega panos de prato que havia deixado de molho de um dia para o outro. enxágua, torce, estende. Livro Bom é prestativo. bondade irônica que faz a casa.  utilitária é arte de fabricar a palavra utilidade. pedras e mais pedras rolando. tonel desenrolado encenando negócios. LB é pragmático. diz isso e aquilo na lata. embora metáfora seu homem de lata, seu leão sem coração, o espantalho sem animação. Marilu nas alturas ficou Dorothy. redemoinho de mingulinzinhos seus filhotes. e o cão perdido perdigueiro num dia de mudança. come moscas. antes foram toalhas, de banho e de rosto. mortalhas, doenças crônicas. na virada sangria escorrendo, estancada. estocada de cálice de vinho partido. caco. vidro. Hotel das Estrelas. Love story. itálicos em clichês de um servo servidor de si mesmo. Livro Bom não vai para o céu. não precisa. prescinde de Deus. da pedra Pedro fundamental. pedra de toque. pedra de pedreiro Pedro erguida. Livro Bom não é despedida. desfiladeiro de ficar por inteiro. equilíbrio de equilibrista. sensações malabaristas. e o circo inteiro. marimbondo. peregrino, itinerário. pessegueiro. a bailarina na corda indiana de ser linda. dedos doídos de torcer molhados tecidos. corpo retorcido. tecido na língua nos dentes.  Livro bom vai ao dentista. ao podólogo. ao analista. muito cuidadoso na arte de cuidar de si mesmo. muito cioso. muito perfeitinho de pretérito perfeito. e a dor nos dedos de torcer tecidos. a paranóia até a última gota. e o clichê de novo. acostamento de encostamento de poste. luz, lâmpada, luminária acesa. café ingerido denso. gordura de verdura preta. grão. pedra. areia. Livro Bom não é bonzinho. fera Roberto Carlos ferida. Livro Bom é Frida. biologia de caracol nos muros do quintal. Livro Bom é Criolo. não Emicida. maldade e bondade invertidas não dão no mesmo. nem seus contrários desenhos. ponto de fuga, ponto de vista perspectiva, LB é pontilhista. escultor da faca empírica. olha a faca, olha o mote. e balança a cabeça. se chacoalha. tara. quara. pesa quanto vale. e o clichê mordendo a boca. a mulher de rua louca, que briga com lazarentos. lamentos da alma invertida. da espinhela caída. do bucho virado. do bruxo dos ventos. Livro Bom encontra Hilda. xoxotinha turquesa. de lábios entreabertos. de labiríntico unicórnio. de cheiro de cloro e clorofôrmio. cratera da vertigem. toda paranóia é narrativa. metafóra continuada em mais nada. metáfora viva. cores vivas da história. trem das cores. as casas cheirando a comida. as coisas cínicas, gaves, não sérias na seriedada inventada da vida. Livro Bom é libro. de bom não tem nada. e tem aquelas libras. colocar na balança e não pesar. colocar na peneira e não passar. Livro Bom é alferista. confere o preço. confere a lista. segue a sigla. deixa pistas. e treme membros superiores. de febre terçã. de febre nas vistas. alferes. manobrista. Livro Bom não é bonzinho. cansou de ser bom. de animal a animalzinho. selvagem. selvagenzinha era a vagem tão perto. ramagem de xoxotinhas. Hilda e a gargalhada histriã. massagem de coxas. mensagem enviesada da lubrificação das coisas. xoxotinhas cochas, coxas, mochas, moucas. em flor. Livro Bom não é bonzinho. cansou de ser bom. e precisa respirar devagar. não se conter. se conter. vagar luas até saudades. ser contido. contado. não retroceder. Livro Bom é mouro. touro torneado e toureado pelas xoxotinhas. imprime Hilda. Escrava que não era Isaura. e canta Isaurinha Garcia. Chiquinha Gonzaga, Ó Abre Alas. Livro Bom não é bonzinho. cansou de ser bom. marcha marchinha. e veste uma camisa listada. e sai por aí. cansou de ser bom. marcha marchinha.

May 24, 2012 at 4:11pm

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QUINTO POEMA DOS POEMAS DO LIVRO BOM

não existe amor em LB. neguinho tem que ler. neguinho não lê, neguinho não lê. não vê, nem crê. não, não existe amor em LB. Livro Bom troca o anel de dedo. passa do indicador da mão esquerda para o dedo de fazer dedinho quando se quer mandar alguém para aquele lugar. dedo anelar. segundo dedo, considereando-se o indicardor primeiro. anel de coquinho. talhado pelo índio de Peruíbe, de nome neguinho. indiozinho. Tupinambá. Tupi não dá. aqui não existe índio. Livro Bom enfia o focinho em tudo que é matinho. faz os caminhos mais descaminhos. desalinha trilhos. e aquele clichê de trilha encostando em todos os clichês de família. Livro Bom gosta quando o clichê dele encosta no clichê de Marilu. ela faz crochê, macramê. mantas, casaquinhos, sapatinhos. vai agasalhar incontáveis patas de seus contáveis doze filhotes. Doze trabalhos de Hércules. Héracles. não existe amor em LB. Livro Bom se encontra com maconheiros. dá de cara com uma xoxotinha. de Lori Lambe lambidinha. xoxotinha hilstiana. Senhora D. LB é um bouquêt. e dele, pululam unicórnios. Marilu criou asas. aos falcões foi se juntar. aos gaviões. Livro Bom labirinta. sofre de labirintite induzida. narinas, ouvidos, garganta. e o esôfago ardendo o mel do doce da saliva. palavra aninhada. armada. em riste. flores mortas na banca da florista fantasma. aroma que irrita. aroma que é cheiro de coisa maldita. a mulher que dorme na rua, perto da casa de LB, briga com gente esquisita. gente que só ela vê, ela inventa. nomeia essa gente de gente lazarenta. manda sair dali com suas doenças da grande saúde contemporânea. doença lazarenta. de lepra Lázaro. de leprosário. história da loucura. pontos de contato. formas de arte urbana. moradia em cabanas. LB não vai para o céu. do limbo distituído, vê o inferno em estado de êxtase. Livro Bom e o gemido do sodomita. a xoxotinha faminta de Hilda. pecado que faz nome, que faz fama, que deita na cama. e aquele clichê de novo. as bolas do saco. o escroto. em LB só há esgoto. e coisa escorrida latrina. cão de rua.  cão sem dono. esterilização em massa da coisa falida. Livro Bom não é crioulo. embora Criolo cite. Criolo excite. Criolo cita. Livro Bom é crioula. língua em variante linguística. segura na cintura de Hilda, segura na cintura de Hilda. e afasta pernas. o eufemismo de Pombinha. favela. guardadores de carro, flanelinhas. invensão de epopéia. memória de Pompéia.  e o Vesúvio nas partes íntimas.  Marilu criou asas. aos falcões foi se juntar. aos gaviões. seus filhotes pularam no corte da mão esquerda reaberto por segurar a coleira. entre dedos inflamados em partezinhas, partículas. primores de temas primários. olhos chapados da xoxotinha. azuis muito claros, azuis turcos, turcas turquesas. pérolas da marquesa aos porcos. e aquele clichê de novo. clichê de homem gordo que ensinou língua portuguesa num colégio católico. a maldade que nos habita. e aquela dor de cabeça curável entre as pernas de Hilda. comprime. estanca. zerar a reza, será que adianta? e a crueldade que nos cozinha. lirismo absorto. lirismo de um dia. páginas e páginas de para mim basta um dia. um meio dia. e dançar a dança do gênero morto. de um texto-capítulo para outro, criar um monstro. um bicho de sete cabeças. um táxi lunar. um lupanar de xoxotinhas hilstianas. Livro Bom tem na mão mascotes. gaiolas de petshop. Zoo history.  é o rinoceronte observável. dragão-monstro da batalha de São Jorge. não existe amor em LB. ele tira a bermuda, faz cara de mistério e ri com Hilda Hilst riso de escárnio. cantiga de amiga. riso trêmulo de quem é tsunami e terremoto. não existe amor em LB. neguinho não lê. não vê, não crê. insiste o narrador insistente, o narrador consciente do Livro Bom. narrador repetitivo, enfático, insistente. fálico, o narrador invade mucosas. xoxotinhas amorosas. rosas. flores expostas. e a inveja dos orgasmos múltiplos, dos orgasmos múltiplos … não existe amor em LB. narrativa selvagem de focinho libidinoso. cão que comporta o gozo. e a glosa torta. e a glosa goza com Marilu nas alturas. não existe amor em LB. neguinho não lê, neguinho não lê. Senhora D e Lori Lambe. e a estirpe das xoxotinhas. não existe amor em LB. neguinho não lê, neguinho não lê. Criolo cita. Criolo excita, Criolo recita. língua de Hilda lambida. beijo na boca de desentupir pia. não existe amor em LB. neguinho não lê, neguinho não lê. Criolo cita. Criolo excita, Criolo recita.

May 23, 2012 at 5:54pm

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QUARTO POEMA DOS POEMAS DO LIVRO BOM

Livro Bom é LB. sua sigla. LB de Livro bom, mas de lado b. plano b da perspectiva. lado b da vida. lado b do LP que se ouve, se escuta, se vê em braile, com bengala e cão guia. sai após a chuva. e enxuga as ruas com suas patas, com suas orelhas. Livro Bom, às vezes, é um pano de chão. compra ralador para ralar cebolas. para chorar, chorar, chorar enquanto prepara guacamole para seu jantar. e prepara salada de cactos. flor rompida ferida. vermelha, ela destoa da aridez de toda e qualquer certeza. flor ferida com a luminosidade apagada da iminência da chuva. esquisito dia que só anuncia. enunciados que não se enunciam. viéses. climas. celulose de células de celulares sem vozes. Livro Bom é uma sigla. nômade,  aquece. esfria. e sente na espinha variações de alquimia. aquieta. arrefece. se apazígua. necessita fazer uma lista de coisas a serem cumpridas. páginas que não escapem da memória. coisas esquecidas. páginas a serem apagadas. não lembradas. de memória interdita. interrompida.  sabe que tem que lembrar. que tem que esquecer. e teme lembrar. teme esquecer. Livro Bom não é memorialista. faz a lista. tudo se perde. tudo se conquista. são pequenas canções das antigas. cantadas por uma vizinha amiga. são rezas para Santa Rita. segue a sigla. chora o bastante. olhos basculantes. Livro Bom é LB. de lavar bem. de lamber bem. de ser bem lambido. de fazer a lição de casa. as tarefas terrestres. nada aéreo. e aquela ambiguidade de sempre. que sempre volta. que nunca falta. que não vai embora.  Livro Bom é energia fanática. fantástica. cheiro de rosas e figos. ele milonga milonga, uma Ramilonga, uma remilonga longa de melancolia absurda. luminosidade reacendida. e corta a mão esquerda em três partes diferentes. três lugares. três partículas. até nos cortes é gauche. corta o dedo da aliança com Marilu. Livro Bom se precipta no pão, na margarina. margarida a vida margarida. manteiga. coisas da vida. e a organização animal dando até logo ao homem. coisa dura. mole. remédio tarja preta. negrura de café no negrume da xícara. põe na lista: ferro de passar roupa, tábua, vapor de água. texto para Belo Horizonte, texto para Mariana, texto para Rio Grande. capítulo de livro enxuto. diminuído.  diminuto. e a dor do corte era poda, semeadura da coisa podre, da coisa pobre. história da América. refazer América sem métrica, nem utopia. Livro Bom é LB. intransitável cidade em dia de greve de transportes. discursinhos fascistas, nazistas. ampla cobertura em horário nobre. escava o escaravelho do relatório velho. o inseto no chão do quintal. besouro  com fobia de espaço. aquele abraço era medo. confortável berço, carrinho, babadouro. ele é lugar e logradouro. definível indefinidamente. anatomia do crânio. secreto sincrético é mimético ao balé do cachorro. pede socorro. ganha tempo. e tudo posterga. nada entrega.tudo adia. navalha na liga de Marilu parida. Livro Bom é LB. Marilu pariu do corte da mão esquerda do cão em ferida. navalha na liga de Marilu parida. e aquele narrador enfático-repetitivo nos grunhidos-latidos-uivos do LB. do LP riscado. gramofone de vitrola sem agulha, Marilu pariu do corte na mão esquerda de quem lhe deu guarida. Livro Bom é LB. sua sigla. escuta, ouve. e registra matéria ainda a ser consentida. navalha na liga. no meio da sala, Marilu se viu parida. empiria que dá cria. bolsa estourada. e aquela água. navalha na barriga, Marilu pariu partida.

May 22, 2012 at 3:25pm

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TERCEIRO POEMA DOS POEMAS DO LIVRO BOM

pão do padre. pequeno. Livro Bom pensa ser o pai do mundo. e esquenta língua. porção generosa com cenouras e batatas cozidas. faz arroz integral, lava agrião de complementar refeição. e no tapete da cozinha faz que dorme. não dorme. fica à espreita. Marilu vê a barriga crescer. encostar na pia. sal e azeite nas batatas, Livro Bom e Marilu se consumiriam. não se consomem. não se consumirão. comensais deles mesmos eles seriam. serão. ele cão. ela cã. ele Tifão. ela sereia. ele limpa o filtro d’água donde antes uma perereca havia. limpa a vela com açúcar. e a sensação nas mãos, quando ele esfrega, é a de ter areia entre dedos, nas palmas. Marilu dança uma ciranda: Dona da casa, me dê seu salão para eu vadiar, me dê seu salão para eu vadiar. Eu vim aqui foi para vadiar, eu vim aqui foi para vadiar. Livro Bom investiga a comida. inquire, perquire. focinho direcionado para o alto, faz intervenção na atmosfera. saber de sabor de latida. a água agora desce do compartimento de cima mais rápido para o debaixo. é filtrada escorregadia. não pinga, como nas torturas de torneiras avariadas. desliza fortuita. hidratação de poesia. vida suprida. depois do jantar, Livro Bom come biscoitos. pequenas guloseimas que o ajudam no adestramento.  e fazem de seu hálito algo assim como fresco. biscoitos de hortelã. e sálvia que o salva do tártaro. Marilu não é canina. é uma ideia de fêmea. de cadela emprenhável. a parir. sombra numa descida. Marilu é fantasma. metáfora que não realiza. a alegria que dança. as palmas, as sensações na ciranda. vestido que é pele, pele vestida. pão do padre. pequeno.  osso a ser roído achado numa esquina. e todas as casas por onde Livro Bom passa têm cães nos portões. latidos. choros. conversas, donas de casa, guaridas. Livro Bom muito ansioso para ser lido. para ser livro. sendo escrito. epigramas de pijamas. sonetos. formas fixas. joco-sérias. de linguagem não de férias. oitava rima. décimas. récitas de uma dor de lombriga na barriga. formas móveis. uma fome absurda, mesmo quando não se para de comer. Livro Bom se serve de uma pergunta: você tem fome de quê?  sua resposta não é interdita: tenho fome de placenta. e líquido amniótico. e de nadar naquela piscina. fome, cujo nome é saudade. era tanta saudade que ficou até doente, que ficou até doente, menina. Livro Bom abusou do itálico. pão do padre, pequeno, era uma caixa de papelão vista no lixo com essa inscrição. inevitável fazer outra pergunta: de que se trata o inscrito no papelão? eram hóstias jogadas fora, por pura falta de quem as recebesse, por pura falta de confissão.  mesmo que Marilu não seja empírica, Livro Bom para ela amanhã irá esquentar os pães. seus dedos. porque se pensa pai do mundo. pão dos pobres. porque de antropofagia tem fome. vai dar a Marilu o colo de seu colo. fará uma colagem de pedras portuguesas do calçamento de seu não-nome. de sua alcunha. sua bondade. crueldade da doçura  que mais arde. mais arranha, mais empesteia. invenção de portão. limites da visão que o limita em expansão. prolongamento. alargamento. vapor de cilindro do lirismo porreta. do lirismo porrete. do lirismo corrente. Livro Bom viaja no escuro. bem mais que seguro, bem mais que alegre. Marilu, flor aberta do universo, no livro se cola, como útero que carrega doze filhotes. pequenas bolas. pequeno enredo de uma não-história. pão do padre. coversa de comadre. ela é fenda. ele, ferramenta. fermentação da quentura dos corpos. fervura. ele é livro de poesia e poeta a compor o livro. ela, musa híbrida da poesia nada concreta. Livro Bom canta como passarinho. de manhã cedinho. é cão, cãozinho. doze filhotes de seu outro mote: pão do padre. pequeno.

May 21, 2012 at 5:06pm

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SEGUNDO POEMA DOS POEMAS DO LIVRO BOM

não mata, nem esconde a criança que foi. Livro Bom tem que fazer rir e chorar. ele tem o dom de ver a criança que há no adulto. no animal, no filhote. cãozinho, mascote. não vê o caráter propriamente. se foi santo ou demônio. não vê se foi levado ou comportado. não vê as ações. vê a aparência infantil, a do filhote. vê a criança residual. aquela trazida no peito, no semblante. Menino Deus. Pequeno Buda. suspira uma sustança sustentada por um sopro divino. Livro Bom vê, mas não de um modo muito claro. vê sem desenvolver. vê de modo intuitivo. sem que tenha desenvolvido o dom. e, de repente, se lança. canino, quer ser pássaro. tigre. coruja. lembra que de seu terraço, lugar alto onde habita, exergou três tigresas. duas a se enrolarem e se desenrolaram, como gatas que se trançam em pernas, em móveis da casa, em pessoas. a terceira tentava alcançá-lo com as patas dianteiras. não era propriamente um ataque, nenhum risco. Livro Bom não corria perigo. a terceira tigresa quis pegá-lo, como uma sedução de conquista. quis buscá-lo. trazê-lo para o chão. aterrá-lo como fazem as carnes e as beterrabas quando comidas. ele tem um dom. e a graça de não só achar graça. e sorri sorrisos diversos. divertidos. pestinha, maroto, engraçado, safado, despudorado. Livro Bom tem sorriso luminoso. sorriso do gato de Alice. sorriso que dá medo, pânico, intriga. uma espécie de querer não mais querendo, de não querer só querendo. às vezes, dá medo.  Livro Bom é um petshop. um patchwork do sagrado e do profano. é divino e maravilhoso. não tem tempo para a morte. semente ele não quer ser. no entanto, brota da palavra broto quando late ou boceja. quando uiva para lua cheia, e saliva suco de uva. quando lateja. ele chora para ir embora. chora para ficar. chora para voltar. não que não saiba o que quer. ele quer tudo ao mesmo tempo agora. transitório simultâneo, ele é instantâneo. não mata, nem esconde a criança que foi. cão pequeno, cão filhote. amor de cachorro. perro. estrutura de serrote ele junta, ele cola, ele desabsorve. tem marcas de afetos. linhas das palmas das mãos como afluentes de rios. suor que são cheias, alagadiços, enxentes. linhas que transbordam. nenhuma cigana o leria. nele, se afogaria. Livro Bom solto no pátio. daquele jeito de quando ao dormir a gente vai se deixando levar, vai se entregando até não mais resistir. e que prazer o da entrega e o da não resistência! maneira melhor de dormir. quando pego pelo sono, Livro Bom é só abandono. já não se sabe quem é quem. se o cão na caminha, no estrado, se o estrado, a caminha, no cão. é tecido fundido nos pêlos. são pêlos fundidos no tecido. são tecidos-pêlos, pêlos-tecidos. e o algodão que faz o recheio. ele de conchinhas com ele mesmo. Livro Bom por dentro. e aquela hipnose, a distância do departamento de zoonose, longe da carrocinha. e aquela hipnose. olhos fixos se fechando. tudo perdendo a força, a ferocidade e o jeito. de repente, dorme. e arrisca uma lambida em seus próprios beiços. ele dorme. não sua língua. ela continua no mote, no estribilho um pouco modificado: Livro Bom não mata, nem esconde filhote. Livro Bom emprenha a cadela polonesa. Marilu dará cria.

May 20, 2012 at 8:38pm

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PRIMEIRO POEMA DOS POEMAS DO LIVRO BOM

nem sei se ele tem dentes. azul tem dentes? cão tem. cães os tem. azul de céu, azul de praia. azul de color de poeta. nem sei se ele tem dentes. não os vejo. não os sinto. não os lamberei. Livro Bom diz, ao ler jornal, que de sua boca sai uma gruta descomunal. depois de enxaguar panos de chão, os estender, depois de alimentar a si mesmo, alimenta o cão de si mesmo. Livro Bom profere essas palavras, escande esse poema, essa canção. ainda agorinha, passou um café. coada escorrida densa, a bebida foi morar temporariamente na garrafa têrmica recém adquirida. ele fez café para um batalhão, no entanto está no Bloco do eu sozinho. Livro Bom reorganiza cds, livros, discos à mancheia. tem as mãos cheias. caudaloso rio que a si mesmo se pariu. foi enfático. errático no raquítico sentimento de vida. abocanhou idas e vindas. como, se nem dentes sei se ele tem? no vazio de sua gengiva, foi mulher sensitiva. dentifrício para dentinas sensíveis. não morde a carne. lambe a verdura de manchas nascidas. o azul proporciona porções de latidos. em azuis se consome. como branco de oitiva de esquimó. nunca um branco só. brancos distintos, catalogáveis. azul de hera, azul de heremita. azul bandeira. azul da praia que habita. azul que precipita. nem sei se ele tem retinas. capacidade de reter a luz, reter o sol. e derreter a tatuagem vindoura, por vir, desenhada no devir do desejo de ser escrita. animal volátil. pássaro. ícone da natação em olimpíadas. derreter para condensar entidades, deuses. jardim de falos. falo-adolatria. ato falho de despedida. nem sei se morderia tintas. dentes ele tem? quem o viu o diria. Livro Bom não tem brasão de família, pedigree, nem sobrenome. Livro Bom não tem pré-nome, nem nome. é chamado Bom porque essa alcunha foi imposta a ele desde a partida. ele fareja, fareja, fareja. defeca e urina nos mesmos sítos. lugares por onde passeia. lugares por onde passa. e cheira margaridas muito amarelas. margaridinhas aclimatadinhas. pequenas margaridas. pequenos modos de ser amarelo. pequenos modos de ser florido. Livro Bom se poliniza. espirra. sacode a cabeça. e voa saliva, baba, remela, sangria. água misturada. não sei se tem dentes. sei que o dente do juízo já mastigou. azul ele tem. e tem o anoitecer de matizes com avião de um lado e armação de tempestade sozinha do outro lado. prata, chumbo, cinzas. Livro Bom escorrega, tropeça, desliza. uma cadela polonesa acha linda. balança o rabo. mantém ele para cima. ele se parece com ele mesmo num tempo longínquo. aquoso, ele é líquido. autor, leitor e personagem de si mesmo. sua matilha é a matilha do singular e único lobo. cão voraz, cão raivoso. Canes, panes et circenses. nem sei se dentes ele tem. sei desarmar armadilhas. e sei da presa livre. da obra em processo, o poema palmilha. memória olfativa. repetição do mote em três potes numa autoparáfrase: nem sei se dentes ele tem … memória olfativa, sardas na barriga.

May 19, 2012 at 3:22pm

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ainda mais sobre Livro Bom

Livro Bom é livro azul. vontade louca de ouvir Braguinha. no entanto, ouve Cibelle a cantar Cajuína. ouve Cibelle a cantar London London. Nelson Cavaquinho relembra cavaquinha. antiga imagem do mar dos dias.  Livro Bom é livro azul. cavalo voador, hipocentauro, rinoceronte, mastodonte. e todas as formas da mostruosa alegria. estende lencóis. fronhas não mordidas da sodomia. nenhuma curra, nenhuma sodomia.  estende roupas de cama lavadas, antes usadas por três semanas. roupas de muitos dias. era tanta saudade que de tanta não mais existia.  e ficaria boquiaberto com Alegria Alegria. e não fica. e não fica. e não fica … no varal, as cores pintam o dia. são Aquele Abraço. prognósticos de uma viagem. providências, resumos, abstracts. texto espandido. tecido dele mesmo a ser demonstrado. monstro da lagoa no pote de água do cão no terraço. belveder, tapete, canção. Livro Bom em folhas almaço. estômago doendo de fome. esôfago a queimar hipotipose. escrita hiperbólica. para menos e para mais.  o inseto escaravelho que era o bicho. besouro numa Ciranda de Pedra. de barriga para cima. enigma de argila. Claro Enigma canino.  a dor no pescoço de carregar os ombros no lombo. não dançar na rua. o Beijo no asfalto durante uma manifestação por abertura política. status. estatuto. doutrina de vida transgredida. juntas doídas. secreção de narinas obstruídas, Livro bom não fareja nem feminino nem masculino de sua espécie. fabrica farinha da mandioca colhida. segue os rastros. pistas em solas de sapatos de outras estadias. estadas do estado de ser hóspede.  juntas obstruídas, narinas doídas.  debaixo do barro do chão, eclode uma ode. é todo só redondilhas. ingere o arroz doce que dá a ele sabor de arroz doce às suas papilas.  ingere a feijoada que merece por ser bom. feijoda e mais nada. morre por meia hora. morre como sua tia dizia morrer quando estava absurdamente cansada. Livro Bom é livro azul. livre de outras cores misturadas. azul de metileno. azul de lápis. Livro Bom é livro azul. vento no varal de casa. Livro Bom é livro azul. a casa vivíssima após a imitação simulação de sua morte. a casa vivíssima sem miasmas, nem letargia. Livro Bom é livro azul. vento. ventania.